Editorial
A primeira edição do ano de 2008 da revista Atualidades em Educação destaca importantes visões de educadores sobre diversos aspectos das políticas públicas aplicáveis às escolas de educação básica e superior das redes públicas e privadas.
"O poder da internet", na visão do senador Cristovam Buarque, mecanismos para o "apoio ao professor", pelo professor Roberto Boclin, "educação e planejamento familiar", através do economista Rubens de Freitas Novaes, "o desafio dos educadores", sob a ótica do filósofo Antonio Luiz Bianchessi, "estratégia educacional brasileira", pelo sociólogo Rudá Ricci e "sociologia não volta às aulas" de José de Souza Martins permitem um destaque sobre a evolução sobre os sistemas de aprendizagem.
Dentro do contexto de permitir um registro histórico sobre os fatos que foram notícias o periódico mostra, ainda, os últimos acontecimentos do ano passado.
Aliás essa é a missão da Atualidades em Educação que há mais de duas décadas destaca os principais assuntos que se apresentam úteis aos profissionais que atuam em nosso País.
João Roberto Moreira Alves
Presidente do Instituto de Pesquisas
Avançadas em Educação
(IPAE
-186-01/08)
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O
poder da internet
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Cristovam Buarque(*)
Em
outubro de 2000, publiquei neste jornal um artigo com o título
“A Internacionalização da Amazônia”. Nele,
repetia minha resposta a uma pergunta feita por um estudante
norte-americano, em setembro daquele ano, em Nova York,
durante um evento promovido pelo State of the World Forum. Ele
estava sentado no chão, em frente à mesa que eu ocupava,
levantou e fez sua pergunta. Não se sentou, esperou que eu me
levantasse e quando comecei dizendo que era contrário, ele
continuou: “não quero sua resposta como brasileiro, mas sim
como humanista”.
Reorientei minha resposta, e disse que como ser humano era a
favor da internacionalização da Amazônia, mas desde que
internacionalizássemos também tudo o que fosse importante
para a humanidade. As reservas de petróleo deveriam ser
internacionalizadas, porque são tão importantes hoje como a
floresta será amanhã. Os arsenais nucleares não deveriam
ficar nas mãos dos Estados Unidos e de outros poucos países,
deveriam ser internacionalizadas. A própria cidade de Nova
York, onde está a sede das Nações Unidas, não deveria
pertencer apenas aos Estados Unidos. O capital financeiro
especulativo, que provoca fome, desemprego, destrói países
inteiros com prejuízos maiores do que as queimadas da Amazônia,
tampouco deveria ser de um particular. Defendi até que os
principais museus do mundo fossem internacionais. Afinal, eles
são os guardiões do patrimônio cultural da humanidade,
tanto quanto a Amazônia é seu patrimônio natural.
Até
as crianças do mundo deveriam ser internacionalizadas, o que
evitaria que algumas morressem ou trabalhassem por terem
nascido em um país pobre. E concluí dizendo que, como
humanista, defendia a internacionalização do mundo, mas
enquanto o mundo nos tratasse como brasileiros, a Amazônia
deveria nossa. E só nossa.
Por alguma razão que não consigo explicar, o artigo caiu nas
graças dos leitores e passou a circular na Internet. Foi
traduzido espontaneamente em diversos idiomas, chegou a entrar
na antologia dos “Cem Discursos Históricos Brasileiros”,
preparada pelo Professor Carlos Figueiredo.
Porém, as versões da Internet contêm alguns equívocos: de
que o evento aconteceu em uma universidade, quando na verdade
foi em uma sala do Hotel Hilton de Nova York, na 6ª Avenida
(só em novembro de 2007 fui convidado a falar sobre o
assunto, na Universidade do Texas - Panamericana); de que o
fato foi publicado em jornais norte-americanos, depois de ter
sido ignorado por jornais brasileiros, quando na verdade, foi
O Globo que o publicou, nesta coluna; até de que o autor
seria o Chico Buarque – eu ficaria muito contente se pudesse
trocar a autoria de todos meus artigos por qualquer uma das
belíssimas músicas que ele compôs.
É comum que em minhas viagens, no Brasil e no exterior,
pessoas me perguntem se eu sou, de fato, o autor desse
discurso.
Há poucas semanas, fui visitar a base brasileira na Antártica.
Durante escala em Punta Arenas – na margem do Estreito de
Magalhães, no extremo sul do continente –, o Major
Brigadeiro da Diretoria de Intendência do Comando da Aeronáutica,
Eliseu Mendes Barbosa, chamou-me à portaria do hotel, para me
mostrar o porteiro, que estava falando sobre o artigo, sem ter
a menor idéia de que o autor era um dos hóspedes. Assim que
regressei, uma rádio da França me colocou no ar, ao vivo,
para debater o artigo com o locutor e pessoas que comentavam
pela Internet.
A apresentadora Ana Maria Braga leu o artigo no início de seu
programa, no Dia Nacional do Meio Ambiente. O ator Antônio
Abujamra também o lê, no meio da sua peça “A Voz do
Provocador”.
O
fato é que um artigo publicado um certo dia em O Globo ganhou
o mundo, graças à Internet e a alguns leitores que decidiram
tomar seu tempo para reparti-lo com outras pessoas, criando um
processo de sucessivas reproduções, como uma reação em
cadeia.
Esse poder da Internet só faz mostrar que o mundo realmente
precisa ser internacionalizado. Mas, enquanto não for, a Amazônia
é nossa! Só nossa!
(*)Senador, in O Globo
(IPAE -187 -01/08) |
Apoio
ao professor
Roberto Boclin(*)
Comenta-se
que nos anos 40, 50 e 60 o ensino público era muito bom. Será?
Eram poucas escolas muito boas, outras escolas muito ruins e muita
gente na idade escolar sem escola. Hoje, no ensino fundamental,
continuam sendo poucas escolas muito boas; porém muitas escolas
ruins e, ao contrário de antigamente, muita gente nas escolas sem
aprender nada.
Por que nos anos 40, 50 e 60 o analfabetismo apresentou dados dramáticos,
dignos de uma praga epidêmica? Se a escola pública ensinasse a
ler, escrever e contar nas quatro primeiras séries do primário, não
seriam tantos os analfabetos. E atualmente a situação mudou?
Infelizmente não. Apenas se diz que noventa e tantos por cento dos
jovens em idade escolar estão nas escolas, mas, na realidade, a
maioria dos concluintes do ensino fundamental aprendeu muito pouco
ou quase nada; e uma parcela ponderável dos concluintes do ensino médio
também. Quem pretender modificar o quadro lamentável da sociedade
precisa começar pensando em modificar a educação; não como os
economistas do passado, com teorias do capital humano, da eficiência
mensurável dos custos-benefícios etc., nem como os de hoje, com
seus planos nacionais e estaduais que não saem das gavetas, dos
dados e das estatísticas. Todos são válidos; dados, estatísticas,
curvas e gráficos são importantes, mas o que se torna urgente
reside na prioridade a ser dada aos agentes do processo de
aprendizagem: ESCOLA, PROFESSOR E ALUNO.
É preciso reposicionapo e ultrapassados pela velocidade do
progresso tecnológico. A sala de aula deve estar aparelhada para se
tor social e economicamente a figura do professor, qualificando-o
para missões que lhe restituam o respeito e a admiração da
sociedade e proporcionem uma retribuição social compatível com
suas funções. É preciso rever as metodologias e os aparatos didáticos
envelhecidos pelo temrnar tão atraente quanto um cybercafé ou um
salão de jogos eletrônicos. Finalmente, uma escola pública não
pode funcionar por apenas três horas diárias. É ridículo
imaginar um processo educativo fast-food.
(*)Presidente do Conselho Estadual
de Educação do Estado do Rio de Janeiro, in O Globo
(IPAE
-188-01/08)
Educação
e planejamento familiar
Rubem de Freitas Novaes(*)
Ao
se fazer um balanço dos acontecimentos de 2007, nada chamou mais a
atenção daqueles que se preocupam com nossas perspectivas de
desenvolvimento no médio e longo prazos que as sucessivas demonstrações
de que a educação no Brasil vai de mal a pior e que nossos jovens
estão entre os mais fracos do mundo em domínio do idioma pátrio,
ciências e matemática.
Em conseqüência, muito se escreveu para mostrar que as causas de
nossas carências eram multifacetadas, passando por deficiência na
formação dos professores, pobreza de equipamentos escolares, má
remuneração dos profissionais da área, educação ideologizada,
etc. etc. Em suma, escolas e mestres não estariam à altura da missão
a ser desempenhada.
Entretanto, há de se ter coragem para aceitar que boa parte do
problema está na própria matéria-prima básica e razão final do
processo educacional: a criança. É "politicamente
incorreto", pode parecer elitista e de mau gosto, mas é forçoso
reconhecer que escolas e professores não podem fazer milagres
diante de uma multidão de estudantes com sinais evidentes de deficiência
mental para aprendizados mais complexos.
Nossas estatísticas de crescimento populacional mostram que cada
vez mais os nascimentos se dão em lares mal estruturados, onde são
precárias as condições de apoio à boa formação intelectual das
crianças. Muitos dos filhos assim nascidos são fruto de gravidez não
programada e indesejada. Ora, é nos primeiros estágios de vida que
se formam os neurônios. Má nutrição e/ou ausência de estímulos
mentais adequados na fase pré-escolar geram handicaps cognitivos
que tornam quase impossível o desempenho escolar satisfatório dos
jovens, mais adiante. Por sua vez, adultos incapazes de dominar o
idioma pátrio e os rudimentos da matemática serão também
incapazes de habilitar-se para as tarefas cada vez mais sofisticadas
do mercado de trabalho urbano. O resultado é que disparam as estatísticas
do crime e da mendicância, áreas para as quais não se demanda
qualificação intelectual alguma e que passam a garantir a sobrevivência
de quem não consegue retirar o sustento das atividades produtivas
normais.
A teoria econômica nos ensina que cabe a intervenção
governamental quando certos atos geram impactos, sobre terceiros, não
levados em conta pelo agente primeiro da ação. Quando uma família
dá vida a crianças que serão malcuidadas, está impondo um ônus
a toda a sociedade que arcará, em última análise, com as conseqüências
indesejadas de seus atos. Estas "externalidades negativas"
justificam a adoção de um amplo programa de incentivos à contenção
voluntária da natalidade, direcionado para segmentos fortemente
carentes da população, visando à universalização das
possibilidades de planejamento familiar.
Sem que haja a plena consciência do problema posto, seguida de ação,
continuaremos a trilhar o caminho do emburrecimento progressivo de
nossa juventude e a comprometer o bem-estar das futuras gerações
de brasileiros. É simples assim!
(*)Economista (UFRJ),
com doutorado pela Universidade de Chicago. Foi presidente do SEBRAE
e diretor do BNDES, in O Globo
(IPAE
-189-01/08)
O
desafio dos educadores
Antônio
Luiz Bianchessi(*)
As nuvens sombrias recentemente ampliaram suas dimensões. Cientistas denunciam a progressão imprevisível e incontrolável do degelo. Nossa capacidade mental e emocional pode avaliar as conseqüências mundiais com a realização das previsões. Poderosos, com subterfúgios egoístas, fingem compreensão do problema mas não aderem a compromissos com a eliminação dos principais focos poluidores.
Já acenamos para o medo fantasioso como fator patológico, porque pode ampliar o "estacionamento" humano, ou promover desencontros belicosos regionais e internacionais. O desequilíbrio emocional assume proporções preocupantes. A humanidade não se encontra, psicologicamente, segura para enfrentar semelhante desafio. A capacidade de resposta parece inferior às exigências da natureza.
O retorno das agressões que impusemos à Natureza assume violência gigantesca. São bilhões de toneladas de tóxicos, que deterioram, continuamente, a atmosfera. Sustentam a incapacidade humana de resposta adequada: o egoísmo, a ganância, a ânsia de poder, o jogo sujo, o desequilíbrio emocional e mental, a prática constante do uso irracional da natureza etc. Embora com noção indefinida daquilo que nos aguarda, podemos afirmar que a Educação Vertical vigente é sustentáculo da calamidade que enfrentamos. Para comprovar minha assertiva, é importante diferenciar, embora de maneira superficial, instrução de educação. Instruir seria proporcionar, ao educando, oportunidades de escolha consciente da aprendizagem, para capacitar-se ao exercício da profissão. Educar pretende proporcionar, ao educando, oportunidades de realização das melhores escolhas, fundamentado em paradigmas internos, consciente de sua responsabilidade moral e ética, no exercício da cidadania, para uma convivência humanizada.
A apatia e a indiferença tendem a abrandar a própria veemência. Manifesta-se interesse nacional pelo aperfeiçoamento do ensino público. Há esforço generalizado na implantação de cursos técnicos, para atender à demanda por profissionalismo. O conhecimento e a tecnologia são fundamentais na revolução saudável de um país. Felizmente, há certa conscientização de que a carência de tecnologia reduz, drasticamente, as probabilidades de progresso.
A divergência conflituosa reside na sistemática educacional. Tradicionalistas, conservadores, falsos modernistas, fundamentalistas etc. permanecem ferrenhos defensores do status quo. Qualificam-se como senhores da verdade.
A capacidade de mudanças radicais restringe-se a fatores secundários. A ânsia de aparecer e a sofisticada ganância de poder congregam forças belicosas disfarçadas em "desejos saudáveis" de colaborar.
A Educação Vertical vigente, objeto de 50 anos de estudo e pesquisas, caracteriza-se pela adoção de paradigmas externos. A base "sólida" de sua manutenção, reside em: "Educar é conduzir a partir do educador". Deduzimos que a força da Educação Vertical sustenta-se em paradigmas externos. Infelizmente, os condicionamentos, na prática, determinam, inclusive, o modo humano de viver.
Quando os paradigmas predominantes forem negativos e de procedência externa, a absorção de normas e valores positivos restringe-se à diminuta parcela. Na ausência do educador, o educando permite-se comportamentos contrários aos legados pelo sistema. Os condicionamentos negativos, como injunção, podem marcar, seriamente, o educando.
Como exemplo, citamos um pai que propalava, na família e na comunidade, a honestidade, a moral rígida e a ética como forma de manutenção de uma convivência harmonizada. Certo dia, ao retornar do emprego, anunciou o Natal antecipado. "Saí adiantado da empresa, porque o gerente ausentou-se, e um colega meu comprometeu-se a bater o meu cartão. Parei no supermercado. O horário favoreceu-me e surrupiei duas caixas de bombons. Filhos, nesse Natal, celebremos nossa união e a honestidade, distintivos de nossa família".
Honestidade, moral e ética etc. impostas sem o assentimento do educando, ao surgir "ocasião propícia", somem do mapa da efetividade familiar, escolar, empresarial, etc. O desencontro entre o falar e o agir do educador e dos que lideram a sociedade transforma-se em vácuo profundo, na retenção, manutenção e vivência de valores, que devem nortear a convivência humana.
É privilégio inestimável e valioso para o educando, se o educador for honesto, ético e merecedor de respeito. O ser humano finda seus dias - o modelo, porém, permanece. O modelo sempre será um alerta invisível, que acalenta energia na superação de desafios.
Educador, você encanta a muitos desencantados com o desencanto da convivência humana, e promove vida encantadora, com o encanto de sua presença, que encanta.
(*)
Filósofo, educador, cosultor e
escritor, in Jornal do Brasil
(IPAE
-190-01/08)
Estratégia educacional
brasileira
Rudá
Ricci(*)
Com a criação da USP, em 1934, nascia um pensamento científico com vocação ao poder político. Essa vocação do mundo universitário cresceu, atingiu cargos de elaboração governamental, gerou referências para a esquerda. Mas, nos anos 90, houve uma acelerada e radical inversão da realidade universitária.
Ao redor de 80% das vagas se concentraram em faculdades particulares, dado o "boom" de abertura de universidades privadas no interior do país. Houve avanços: as vagas noturnas das particulares interiorizaram o estudo universitário e abriram oportunidades a mulheres e trabalhadores. Mas o crescimento foi desordenado e provocou a queda da qualidade.
A "Geografia da Educação" (MEC) revelou que as faculdades particulares do país possuem o dobro de alunos por sala que as públicas, menos doutores e um ínfimo número de docentes com dedicação exclusiva. Há uma impressão generalizada de que houve muita ingerência política na abertura de cursos.
Marilena Chaui, num dos encontros da Anped (maior encontro nacional
de educação), lamentava a transformação da universidade
brasileira de instituição em organização. Explicava que uma
instituição se volta para a sociedade, e a organização, para si
mesma, voltada para sua sobrevivência e seu crescimento.
Agora, ficamos sabendo pelo censo da educação superior que o número
de formados em universidades públicas caiu 9,5% nos últimos dois
anos. O problema é mais grave na medida em que se sabe que as
faculdades do interior brasileiro enfrentam grandes dificuldades
desde 2005.
A inadimplência chega à média de 40% (caso de São Paulo, Estado
mais rico do país). A concorrência entre pequenas faculdades chega
às raias do desespero. O ataque ao ensino médio é cada vez maior
e, muitas vezes, obriga uma faculdade a se conveniar com uma rede de
ensino médio para obter a fidelização do futuro universitário.
Caem as matrículas no ensino médio (1,5% entre 2004 e 2005 e 1,4%
entre 2005 e 2006) e aumenta a procura pela modalidade EJA-médio
(educação de jovens e adultos-ensino médio) em 10% entre 2005 e
2006, motivada pela oferta de postos de trabalho. Projeta-se para
2008 a criação de 2,5 milhões de novos empregos.
Assim, parece ser a hora de repensarmos toda a porta de saída do
ensino regular e o ingresso no mundo do trabalho. O Brasil possui
uma cultura de valorização do título universitário para ingresso
e evolução no mercado de trabalho. Mas a proliferação de vagas
nas faculdades particulares banalizou o ensino acadêmico.
É de questionar, portanto, os motivos para não transformarmos o
ensino médio e a EJA em modalidades próprias, e não "ritos
de passagem". No caso do ensino médio regular, trata-se de
passagem para o mundo universitário. No caso da EJA, de certificação
para postos de trabalho, normalmente semiqualificados.
Qual seria o motivo para não transformar, como ocorre na Europa
(sul da Alemanha, em especial), o ensino médio e a EJA em
modalidades específicas, de alto padrão de qualidade, para formação
de quadros técnicos totalmente direcionados para a vocação
regional do mercado de trabalho?
Haverá, possivelmente, nos próximos anos, um movimento de
oligopolização do ensino universitário privado do país. Em
alguns casos, grupos econômicos mais agressivos e com menor
vocação educacional avançarão o sinal para fazer um bom negócio
a partir da crise cada vez mais profunda de pequenas instituições
acadêmicas. A luta pela sobrevivência será mais aguda e é
necessário redirecioná-la para que não se torne selvagem.
Um acordo nacional estratégico da educação brasileira precisa ser
firmado para definir as identidades de cada segmento do ensino
brasileiro, sua vocação e seu foco de atuação, assim como os
vasos comunicantes entre eles, por meio de programas de extensão
definidos não como marketing institucional, mas como projeto de
desenvolvimento do país.
Afinal, continuaremos com os velhos rituais de passagem, que limitam
o ensino médio e a EJA às técnicas de memorização de fatos e
informações a serem descarregados nos exames de seleção à
universidade ou reproduzidos em atividades repetitivas de postos de
trabalho constantemente ameaçados pelas novas tecnologias ou
subemprego?
Um dia, Florestan Fernandes perguntou-se a respeito do objetivo do
ensino universitário, seu papel social para o país. O mundo
acadêmico se limitou a tal ponto que não temos mais nenhum
acadêmico que se faça a mesma pergunta.
(*)Sociólogo, mestre em
ciências políticas e doutor em ciências sociais, in Folha de São
Paulo
(IPAE
-191-01/08)
A
sociologia não volta às aulas
José
de Souza Martins(*)
Os freqüentes indícios de insuficiências e ineficiências na educação brasileira indicam a ausência de uma diretriz educacional que oriente o ajustamento da escola ao mundo contemporâneo e ao seu melhor legado. A sociedade muda todo o tempo, mas em nosso País a escola não acompanha o ritmo dessa mudança. O aluno fica no meio, confuso, entre a mudança social que o alcança e a educação que não o ajuda a situá-la e compreendê-la. Nem o ajuda a nesse processo decidir entre o que dissemina os valores de afirmação dos direitos sociais e da grandeza humana possível, de um lado, e, de outro, o aniquilamento desses valores que está nos riscos de toda mudança capturada e instrumentalizada por agentes de interesses anti-sociais.
Na boa linguagem sociológica, a escola, numa situação social crítica, como a nossa, tende à anomia. Tende àquela situação em que o entendimento que as pessoas têm das relações sociais não corresponde ao que a realidade é, o que as transforma em vítimas e não em agentes ativos da mudança. Esse desencontro, entre consciência social e sociedade, afeta particularmente os jovens, divididos entre os valores e orientações do grupo familiar, e de grupos de referência altruístas, e as solicitações de um mundo, cheio de incógnitas e desafios, que se abre diante deles continuamente e os questiona. É como se a sociedade em que vivem não tivesse normas nem valores e as normas e valores que conhecem já pouco ou nada valessem. Nessa privação, uma das poucas instituições que poderiam ajudá-los no processo de ressocialização de que carecem, é a escola. Porém, ela se omite, em vez de educá-los e ressocializá-los para os dilemas da mudança, sem neles anular a diversidade social e cultural pela qual transitam, quase sempre num único dia.
Várias causas concorrem para esse forte traço do nosso subdesenvolvimento. Destaco-lhe dois aspectos. De um lado, o descompasso e a distância social e cultural que separa gerações, abrindo abismos entre elas, agravando desenraizamentos e a desorganização da vida que não raro os acompanha. De outro lado, os descompassos decorrentes dos ritmos desiguais do crescimento econômico e do desenvolvimento social. Mesmo as famílias e os jovens que não passam pela experiência do desenraizamento súbito e profundo, sobretudo na classe média, entram nas crises dos desencontros de uma sociedade que, cada vez mais, muda a cada dia e, todos os dias, se torna novamente misteriosa e alienante.
O alarmante assédio das escolas, dos adolescentes e dos ambientes juvenis pelos traficantes de drogas e pela sociedade do crime tem um dos seus fatores justamente na deterioração dos vínculos comunitários que decorre de mudanças sociais anômicas. O "barato" da droga passa a ocupar vazios deixados pela privação de referências culturais oníricas e pela supressão das bases sociais da utopia e da esperança. Seu efeito perverso é, ainda, potencializado pelo comunitarismo da cumplicidade que geralmente há em grupos delinqüentes.
O entendimento da realidade social em crise que assedia e afeta a situação do aluno na escola pede que, honestamente, tenha ele acesso no ensino médio à sociologia básica que o capacite a compreender o outro e o diferente e, na mediação do outro, compreender-se. Para que possa ressocializar-se continuamente a partir dos desafios que nesse sentido encontra ao longo da vida.
O movimento pela sociologia no ensino médio, no entanto, se arrasta sem rumo até hoje, perturbado pela compreensão pobre que dele tem os governos, as escolas e o professorado. Uns porque tem como referência uma economia de resultados, em que o bom e apropriado ensino é confundido com o número de alunos que uma escola catapulta no vestibular das boas universidades públicas. Pouco se fala do que acontece com não poucos desses alunos depois, nas desistências, nas opções erradas e nas frustrações freqüentes, pagas pelo governo. Outros, porque supõem que a missão do professor de sociologia é a de arrebanhar os jovens para as novas religiões em que se converteram muitos partidos de esquerda.
Os próprios Parâmetros Curriculares do Ensino Médio, do Ministério da Educação, e os livros didáticos que por eles se pautam, constituem nesse sentido um problema, pois preconizam o cumprimento do conteúdo dos quatro anos de duração do curso universitário de Ciências Sociais no pouco tempo de que o ensino médio dispõe para a sociologia. Um convite à superficialidade da falsa erudição. No pólo oposto surgiu o argumento de que a sociologia é disciplina transversal cujo conteúdo se pode ministrar nas aulas de matemática ou de biologia. A tese do transversal é um desses recursos de linguagem para acomodar interesses e resolver na aparência problemas que pedem soluções ousadas e criativas.
Mas, o objeto da sociologia e a formação requerida pelo sociólogo se diferenciam significativamente do que ocorre na matemática e na biologia. O objeto da sociologia é constituído pelo princípio da contradição e pelo da identidade e não só pelo princípio da identidade. É objeto dotado de historicidade e seu sujeito de referência é um ser humano pensante, diferente de um número ou de uma minhoca. Na perspectiva transversalista, a sociologia se anula e descumpre sua essencial função ressocializadora, que daria ao estudante os instrumentos teóricos e metodológicos que, ao longo da vida, pudesse utilizar para decifrar e superar, criativamente, as contradições e irracionalidades que são constitutivas do social. A impugnação da sociologia em nome de sua suposta transversalidade é simples e pobre ideologia.
Quanto mais demorarmos para colocar esse meio de discernimento ao alcance dos jovens, mais se agravará o analfabetismo cultural que limita o alcance e empobrece as outras disciplinas do ensino médio. É pobre a compreensão que os estudantes podem ter da matemática ou da biologia se não compreenderem sociologicamente o lugar social do conhecimento e seu próprio lugar na sociedade que os desafia.
(*)Professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, in Estado de São Paulo
(IPAE
-192-01/08)
Educação em
Foco
Na
presente edição destacamos os fatos que foram notícias nos meses
de novembro e dezembro de 2007.
Novembro
Durante o mês de novembro de 2007 vários
resultados de pesquisas foram divulgadas mostrando aspectos
positivos e negativos no setor educacional.
Registra-se, logo de início, um estudo realizado pela Organização
dos Estados Ibero-americanos que destaca que menos da metade dos
docentes da rede pública brasileira (42,4%) está satisfeita com as
condições de trabalho.
O mesmo não acontece com os profissionais que atuam nas escolas da
livre iniciativa, que se sentem bem em seus locais de trabalho. O índice
é de 71,1%. Reunindo-se os dois segmentos esse número sobe para
56,9%.
Não obstante, 65,9% dos entrevistados não pretendem deixar as
salas de aula. Para eles a sociedade não valoriza os mestres e não
demonstra respeito pelos serviços que são prestados.
O trabalho faz comparação com dados obtidos em outros países. Na
Espanha, por exemplo, os resultados mostram que 62,5% dos
professores se julgam satisfeitos profissionalmente.
Outra informação relevante vem da Inglaterra onde as primeiras
universidades pretendem adotar o chamado "diploma global",
no qual os estudantes poderiam, a cada ano, estudar em instituições
parceiras de diferentes países. Universidades da China e dos
Estados Unidos da América já firmaram acordos para integrarem a
uma rede internacional. Outras nações são esperadas para se somar
nesse empreendimento.
Dentre os congressos internacionais, os mais relevantes foram: o XV
da Organização Universitária Interamericana, realizado no
Equador, cujo tema central foi "O ensino superior e governança";
e o 13º Online Educa, ocorrido em Berlim.
Foi divulgado o ranking das melhores universidades do mundo. As dez
primeiras posições são dominadas por instituições
norte-americanas e da Grã-bretanha, sendo a primeira delas a
Universidade de Harvard.
Dentre as 200 mais expressivas estão apenas duas brasileiras: a
Universidade de São Paulo, em 175º lugar e a de Campinas, em 177º.
Em outro ranking envolvendo estudantes de 15 anos de todo o mundo (o
PISA) o Brasil ficou em situação extremamente desconfortável
dentre cinqüenta e sete nações. Ocupamos uma das últimas posições,
segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE).
Registros de protestos estudantis vieram da França e da Venezuela.
No país europeu a discórdia foi contra a reforma universitária. Já
na nação sul-americana o movimento marcou resistência quanto ao
projeto político do atual presidente da república.
Vale menção também a nota de que estudantes estrangeiros trazem
mais de quatorze bilhões de dólares na economia dos Estados
Unidos. As três universidades que mais recebem estudantes
estrangeiros são a Universidade do Sudeste da Califórnia, a
Universidade de Columbia e a Universidade de Nova Iorque.
Alguns estudos mostraram que a formação de professores na América
Latina é para "uma escola que já não existe". Existe
uma perda de foco com a modernidade e os estudos teóricos não
trazem reflexo direto nos resultados práticos. Defende-se que a
formação do docente deve continuar existindo durante todo o período
em que estiver lecionando.
Uma pesquisa brasileira mostrou que cada aluno recebe, em média,
apenas três minutos diários de atenção do professor. A enquete
ouviu centenas de professores que gostariam de se dedicar mais ao
relacionamento com os estudantes. Contudo, considerando que lecionam
para um número elevado de jovens, o tempo dedicado ao
relacionamento interpessoal é reduzido.
No Brasil foi lançado o Plano de Ciência e Tecnologia que prevê
investimentos de quarenta e um bilhões de reais até 2010. Vários
programas envolvendo a pesquisa científica e a inovação tecnológica
nas empresas serão realizados. Dentro desse contexto uma nova lei
criou o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
Também foi revelado o resultado do Censo de 2007 envolvendo as
escolas públicas de educação básica. É possível se ver que
existe um atendimento físico satisfatório na maioria das regiões.
Entretanto, o grande desafio é a melhoria da qualidade.
Foram anunciados programas de intercâmbio entre universidades
brasileiras e estrangeiras, especialmente da Alemanha e Estados
Unidos da América. Os principais beneficiários serão os docentes
das escolas públicas.
O governo federal aprovou uma nova legislação para o Fundo de
Financiamento do Ensino Superior que deverá aumentar
significativamente o número de bolsas de estudo fornecidas pelas
universidades, centros universitários e faculdades. Em outro ato
legislativo, o Executivo regulamentou o Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos
Profissionais de Educação, o FUNDEB.
Os Supervisores Educacionais saíram frustrados com o Presidente da
República que vetou integralmente Projeto de Lei que regulamentava
a profissão. A iniciativa de um parlamentar gaúcho havia sido
aprovada em todas as instâncias do Legislativo, tanto na Câmara
dos Deputados, como no Senado Federal. As razões do veto não são
convincentes e poderá vir a acontecer a chamada "derrubada do
veto", restabelecendo a lei.
Foram realizadas as provas do Exame Nacional de Desempenho do
Estudante (ENADE), sendo notada a ausência de 15,5% dos mais de
250.000 estudantes inscritos. A avaliação permite que exista um
acesso direto à várias universidades públicas e particulares. O
exame foi realizado em 614 cidades brasileiras.
Novos instrumentos para avaliação da educação a distância
passaram a vigorar no Brasil, tomando por base parecer aprovado pelo
Conselho Nacional de Educação e homologado pelo Ministro. As
regras são extremamente detalhistas e criarão dificuldades para
centenas de instituições particulares.
Avançou o Projeto de Lei que consolida a legislação educacional
brasileira em texto único. A matéria já tramita na Câmara dos
Deputados e tende a ser aprovada simplificando a vida das pessoas
que atuam de forma direta ou indireta com a educação.
Por fim, cabe registro do lançamento da versão preliminar do Catálogo
Nacional de Cursos Técnicos que pretende padronizar as
nomenclaturas das habilitações do ensino médio. Atualmente
existem 700.000 alunos matriculados em vinte mil cursos
profissionais. O Executivo pretende fazer com que existam 150 títulos
de cursos ao invés dos 2,8 mil hoje definidos pelas escolas.
Assim foi o penúltimo mês do ano de 2007.
Dezembro
No último mês do ano de 2007, o Ministério da
Educação baixou um pacote de medidas educacionais com decretos
alterando a legislação de educação a distância, as normas para
funcionamento das instituições de ensino superior e regulamentando
o FUNDEB. Também faziam parte do pacote portarias que modificaram
as regras para o trâmite de processos, criando o Sistema Escola Técnica
Aberta do Brasil e alterando aspectos sobre o Programa Nacional de
Tecnologia Educacional.
Diversos outros atos ajustaram operacionalmente alguns programas e
processos vinculados ao governo federal.
Também mereceu destaque a divulgação dos pólos de educação a
distância, que já superam a marca de seis mil. O setor também
cresceu mais de 500% nos três últimos anos, em termos de cursos, e
315% em quantidade de alunos.
As Comissões de Educação da Câmara dos Deputados e do Senado
Federal encerraram suas atividades com resultados positivos. Há vários
anos não se viam resultados tão elevados. Especial menção à Câmara
Alta que apresentou propostas para mudanças da educação
brasileira.
No cenário internacional um ranking das melhores universidades do
mundo colocou a Universidade de São Paulo entre as 100 melhores. O
fato, inédito, foi resultante especialmente da produção científica
desenvolvida por docentes da instituição.
A UNESCO divulgou relatório de monitoramento global da educação
para todos, destacando progresso no cumprimento das metas
estabelecidas para 2015, especialmente no tocante ao número de
crianças nas escolas nos países com maior população.
Lado negativo para o Brasil ficou marcado no relatório da Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), onde os
estudantes mostraram-se com péssimo rendimento. Nos 57 países que
participaram da pesquisa, o Brasil foi o quarto pior em matemática
e o oitavo em leitura. No PISA, os destaques foram para os países
europeus e asiáticos que dominaram as dez primeiras colocações.
Os Centros Universitários realizaram um importante Seminário
Nacional, em Brasília, e sua Associação elegeu seu novo
Presidente.
Foi anunciada a criação de um grupo de trabalho para estudar a
reformulação do ensino médio. O segmento precisa ter uma forte
mudança para permitir a aceleração do processo de ingresso nas
universidades e demais instituições de ensino superior.
Forma curiosa de incentivar os estudos foi criada num condado nos
Estados Unidos da América. Foi fechado um acordo com o McDonald's
para oferecer lanches de graça como recompensa a boas notas e
assiduidade dos estudantes da cidade.
O CNPq, uma das agências de fomento para as pesquisas, anunciou
programa de R$ 50 milhões para ajudar o desenvolvimento de
programas de mestrado e doutorado.
O presidente da República anunciou o Programa Institucional de
Bolsa de Incentivo à Docência voltado para estimular a formação
de professores da educação básica. Existirão R$ 70 milhões para
atender a vinte mil bolsistas.
No campo do relacionamento internacional foi anunciado que o Brasil
participará, a partir de 2008, do Erasmus Mundus, um programa de
intercâmbio da União Européia, que tem como objetivo criar uma
integração entre as instituições de ensino superior.
Especialistas de vários países reuniram-se em Paris para discutir
o conceito de educação básica, assim como sua definição
operacional. O intuito foi de permitir que as ações e trabalhos
acerca desse nível de educação sejam planificados a partir de um
sistema mais amplo, facilitando os programas de cooperação
internacional.
Um outro estudo intitulado "Juventude Mundial" mostrou que
os estudantes brasileiros são os que passam menos tempo na escola
entre os latino-americanos. Os jovens chilenos são os líderes,
seguidos dos peruanos e argentinos. A pesquisa abrangeu 18 países.
Num retrospecto de final de ano, o Instituto de Pesquisas Avançadas
em Educação analisou os principais fatos em 2007. O documento
mostrou, mês-a-mês, os avanços e retrocessos que ocorreram
naquele ano, acabando por se constituir como um texto de reflexões
para analistas de políticas educacionais e pessoas interessadas em
seu desenvolvimento.
(IPAE- 193-01/08)
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